Novo espaço chega para modernizar um dos lugares mais remotos do Brasil. Estrutura não recebia uma grande reforma desde 2008

De tijolinho em tijolinho, uma histórica região do Brasil fica cada vez mais moderna. A Marinha do Brasil e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) iniciaram as obras da nova Estação Científica do Arquipélago de São Pedro e São Paulo (ASPSP), na costa de Natal, no Rio Grande do Norte, a fim de atualizar uma estrutura que não recebe uma grande reforma desde 2008.
Esta será a terceira versão da estação científica instalada no arquipélago — e gerida pela Marinha há mais de 20 anos. A região é o ponto do Brasil mais próximo da África (estando a apenas 1.820 quilômetros de Guiné Bissau) e sofre com condições climáticas únicas que dificultam a execução de novos projetos.

Para modernizar a infraestrutura, serão investidos cerca de R$ 7 milhões do Fundo de Compensação Ambiental, o que promete ser suficiente para dar uma nova cara a uma das áreas mais remotas e estratégicas do território brasileiro. A obra teve início em dezembro de 2025 e tem previsão para ser entregue até o final de 2026.
O que terá de novidade?
Desde que começou a ser construída, a nova Estação Científica do arquipélago já ganhou uma passarela que liga o ponto mais baixo ao mais alto da Ilha Belmonte. Por lá serão erguidas edificações que integram o projeto arquitetônico, conforme informa a Agência da Marinha.
A nova passarela, por sua vez, ainda reduzirá o contato entre os visitantes e colônias de aves que habitam a região, atendendo a uma importante questão ambiental no que se refere à preservação da biodiversidade. Vale ressaltar que o local abriga uma das aves marinhas mais isoladas e peculiares do mundo, servindo como um ponto vital de repouso e reprodução.

O projeto incorpora soluções modernas de arquitetura, onde o uso de materiais altamente resistentes à corrosão e um sistema de montagem por encaixe que reduz o uso de parafusos se destacam. Além disso, a estrutura otimizará significativamente a capacidade de apoio às pesquisas.
O novo espaço envolve um acordo de cooperação técnica com outras instituições. São elas o ICMBio, a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST) e a Marinha, representada pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM), coordenadora do Programa de Pesquisas Científicas no ASPSP (PROARQUIPELAGO).
Mãos à obra!
A princípio, este trabalho promete algumas dificuldades. Isso porque a organização da Estação Científica é complexa e envolve a operação de diversos sistemas adjacentes, como o de geração de energia, o de captação e dessalinização de água do mar e o de comunicações. Ou seja: a garantia de operacionalidade dessa estrutura envolve a necessidade de missões frequentes para o local.

Outro problema é a distância da costa — cerca de mil quilômetros do litoral brasileiro. Tanto é que, para avançar na obra e “driblar” o enorme afastamento, a operação contou com o apoio do Navio Patrulha Oceânico “Araguari”, já que todo o transporte de pessoal e material envolvido no processo de construção é realizado pela Força.
A região cercada por água do mar possui cerca de 17 mil m² e é frequentemente abalada por pequenos terremotos, registrados praticamente todas as semanas. Isso acontece porque o arquipélago fica sobre a chamada Falha Transformante de São Paulo — uma das maiores do planeta.
Publicidade
Por todas essas dificuldades, o desenvolvimento da nova estação requer um planejamento criterioso, de acordo com o Coordenador do Programa de Pesquisas Científicas em Ilhas Oceânicas (PROILHAS), o Capitão de Mar e Guerra Marco Antonio Carvalho de Souza.
Tanto a tripulação do navio quanto a equipe técnica da Base Naval de Natal devem ser detentoras de perícia elevada– explicou o Capitão
O Arquipélago de São Pedro e São Paulo é o pico de uma cadeia de montanhas que se ergue de profundidades próximas a 4 mil metros, com uma dimensão que equivale a aproximadamente um campo de futebol, onde o ponto mais elevado está a apenas 16 metros do nível do mar.
Por conta das baixas altitudes do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o entorno é perigoso para navegação justamente por ser difícil enxergar as ilhas a olho nu, principalmente em condições adversas de luz e de tempo — o que já provocou alguns naufrágios ao longo da história.

Inclusive, a Marinha acredita que o nome do local deriva do primeiro naufrágio que aconteceu ali, em 1511, quando os portugueses tomaram conhecimento da região. Conforme a crença, a embarcação que afundou se chamava São Pedro e os sobreviventes foram resgatados por outra nomeada São Paulo.
Além de uma natureza singular, a região já recebeu convidados ilustres, como o ambientalista inglês Charles Darwin, conhecido mundialmente pela teoria da evolução, que conheceu o arquipélago em 1823; e Ernest Henry Shackleton, um dos maiores navegadores da história, que visitou o local em 1921, meses antes de morrer.
O local guarda as seguintes características:
- Clima quente e úmido;
- Solo rochoso com rochas pontiagudas e escuras;
- Ausência de praias;
- Ausência de vegetação de médio ou grande porte;
- Relativa violência do mar no entorno;
- Grande possibilidade de ocorrência de abalos sísmicos;
- Biodiversidade rica.
Não à toa, a região é considerada uma Área de Proteção Ambiental (APA) e um Monumento Natural (MONA). Tanto a Marinha quanto o ICMBio são responsáveis pela gestão desse conjunto de ilhas.
Por : Paula Carvalho
Fonte : Náutica

