Importadoras independentes se especializam em acessar supercarros e modelos fora do catálogo oficial no Brasil, em processos cujo custo pode chegar a 124% do valor do veículo

No mundo do luxo, dinheiro nem sempre compra acesso imediato. Uma bolsa Birkin, da Hermès, ou um relógio Patek Philippe podem exigir histórico, relacionamento e lugar certo na fila. Com carros de alto luxo, a lógica é parecida. Algumas marcas trabalham com listas restritas, produção limitada e clientes escolhidos a dedo. Ter recursos para pagar não significa, necessariamente, conseguir comprar.
É nesse espaço que crescem as importadoras independentes no Brasil. Elas se especializaram em abrir caminho para clientes que querem carros raros, recém-lançados ou simplesmente fora do catálogo oficial do país. O serviço vai muito além de trazer um automóvel de outro mercado. Envolve acesso, curadoria, negociação, configuração, documentação, logística, impostos, seguro, desembaraço e, em alguns casos, até a decisão de manter o carro fora do Brasil para preservar seu valor internacional.

“Existem duas formas de começar”, afirma Leone Andreta, fundador da GTO. “Tem cliente que já está pesquisando um carro que não existe no Brasil e nos traz essa demanda. E tem o caminho inverso: mostramos novidades e lançamentos aos quais temos acesso, e isso desperta o interesse.”
A busca pode envolver supercarros, hipercarros e marcas de baixíssima produção, como Pagani e GMA. Nesses casos, o desafio começa antes da importação. “O acesso à marca não é democrático”, diz Andreta. “Elas querem saber para quem estão vendendo, qual é o perfil do cliente, qual é o histórico e o que ele já possui.”

Segundo ele, a GTO já viabilizou a venda de um Pagani diretamente com a fábrica para um cliente brasileiro. Em outro caso, conseguiu acesso a um carro de pista de produção limitada. “Nosso serviço vai além de dar acesso. É um processo de ponta a ponta”, afirma. “A gente assessora a compra, ajuda na configuração, acompanha a saída da fábrica, a entrada no contêiner, a parte fiscal, o translado e o desembaraço.
Quanto custa trazer um carro de luxo

A conta é pesada. Segundo Andreta, trazer um veículo para o Brasil pode custar em torno de 120% do valor do próprio carro, considerando impostos e despesas envolvidas na operação. Em automóveis que custam milhões de reais, qualquer variação fiscal ou logística pode representar centenas de milhares de reais.
Foi o que ocorreu com uma Lamborghini Temerario importada pela Via Soho, loja de alto padrão de Curitiba. Sucessora da Huracán, a Temerario combina motor V8 4.0 biturbo e três motores elétricos, com potência total de 920 cv. Segundo a Lamborghini, acelera de 0 a 100 km/h em 2,7 segundos e chega a 343 km/h. No Brasil, o carro foi estimado em R$ 5,8 milhões.

Para concluir a operação antes de uma mudança tributária, a Via Soho antecipou o embarque da Lamborghini e remanejou outro veículo do próprio estoque que ocuparia o cargueiro. A decisão evitou cerca de R$ 400 mil em custos adicionais.
“O timing também faz parte da curadoria”, afirma Leonardo Nunes, sócio-proprietário da Via Soho ao lado de Felipe Janeiro. “No caso da Temerario, a mudança era de 28% para 35% para carros híbridos e elétricos. Mas não era só uma diferença de sete pontos no valor final. Ela entrava na base de tributos e o impacto era muito maior.”
A operação exigiu reorganizar a logística. “Tínhamos outro carro a combustão programado para o navio e colocamos a Temerario no lugar para que ela chegasse dentro do prazo e aproveitasse a tributação menor”, diz Nunes.
Mercado de acesso, não de estoque

Para a Via Soho, a importação independente acompanha uma mudança no comportamento do cliente brasileiro de alto padrão. A lógica deixa de ser apenas escolher entre os carros disponíveis em um showroom e passa a ser encontrar exatamente o modelo desejado.
“O cliente está redefinindo o que é exclusividade”, afirma Nunes. “Estamos caminhando de um mercado de estoque para um mercado de acesso. Ele quer um carro específico e procura alguém que consiga trazer esse produto de forma segura.”
A empresa começou a atuar com importação independente há cerca de três anos e está em sua quinta operação. Antes mesmo da chegada oficial ao país, a Via Soho trouxe duas Ferrari Purosangue para o Brasil e inaugurou sua loja com os dois modelos em território nacional.
“Quanto mais exclusivo é o carro, mais difícil é achar”, diz Nunes. “Primeiro você precisa furar a bolha da escassez. Depois vem a curadoria comercial: encontrar a versão, a configuração e o fornecedor certo.”
O processo pode envolver parceiros na Europa, nos Estados Unidos, dealers independentes e, em alguns casos, a própria marca. “Às vezes conseguimos lotes dentro das montadoras para configurar um carro específico e deixar o pedido pronto”, afirma.
O risco está nos detalhes
A principal diferença entre comprar um carro importado oficialmente e recorrer a uma operação independente está na responsabilidade sobre o processo. Para Nunes, o primeiro ponto é segurança.
“A importação independente exige muitos detalhes: documentação, produto certo, dealer certo e acompanhamento da trade”, afirma. “Se o processo cai em canal vermelho e a documentação não está correta, isso pode gerar um prejuízo grande para o cliente.”
O risco não é apenas fiscal. Há preocupação com transporte, armazenagem, eletrônica embarcada e integridade do veículo. Carros de alto valor costumam viajar em contêineres de navio, com etapas que exigem cuidado até para entrar e sair do automóvel durante o transporte. Outra parte também vem em aviões.
“O maior desafio é o carro chegar 100% ao Brasil”, diz Nunes. “Hoje esses veículos têm muitos módulos e componentes eletrônicos. É preciso desativar baterias lá fora, religar tudo aqui e fazer as verificações. Carro zero não significa carro livre de problema.”
A parte documental também pode travar uma operação milionária. “Qualquer documento atrasado ou necessidade de justificativa pode parar o processo. Dependendo da situação, uma análise pode levar até 60 dias. Enquanto isso, o bem fica imobilizado, com custo financeiro e armazenagem. Em caso grave, pode haver até perdimento da mercadoria.”
Curadoria também é configuração

No topo do luxo automotivo, a compra raramente termina na escolha do modelo. A configuração pode envolver cores, acabamentos, materiais, detalhes sob medida e decisões que influenciam valor futuro.
Na GTO, Andreta diz que esse acompanhamento é parte central do negócio. “Em carros de produção muito baixa, o cliente tem oportunidade de configurar muita coisa. Pode fazer praticamente qualquer coisa. A gente ajuda nesse processo inteiro.”
Em alguns casos, a empresa envolve profissionais externos. “Já contratamos designer italiano para ajudar na configuração”, afirma. “O objetivo é assessorar a compra e preservar o valor do carro em nível mundial.”
Essa lógica explica por que alguns clientes optam por não trazer o carro imediatamente ao Brasil. O veículo pode permanecer no exterior, guardado e entregue onde o proprietário for usá-lo. “Tem cliente que prefere deixar fora e receber o carro quando viaja”, diz Andreta.
Para quem decide nacionalizar, a operação segue o caminho completo: saída da fábrica, transporte, embarque, chegada ao porto, trâmites fiscais, desembaraço e entrega. “Muitos vêm de avião”, afirma o fundador da GTO.
Exclusividade com pós-venda
A importação independente também precisa resolver uma questão prática: o que acontece depois que o carro chega? No caso de marcas sem operação oficial no Brasil, ou de modelos que não são oferecidos localmente, manutenção e suporte exigem rede especializada. E muitas importadoras independentes também atuam nesta frente.
Para o Nunes, a importação independente ganhou mais espaço porque os entraves diminuíram e os clientes passaram a enxergar o processo como alternativa segura quando bem conduzido.
Ainda assim, ele reconhece que o cenário pode mudar. “Não sabemos até quando esse mundo da importação independente vai manter essa vantagem”, diz. A chegada oficial de marcas e novos modelos pode reduzir parte desse espaço, mas não elimina a busca por carros raros, configurações específicas e acesso antecipado.
Por: Paula Carvalho
Fonte : Forbes Brasil

