Em clima de Dia dos Namorados, como está a busca por amor dos mais de 81 milhões de solteiros no Brasil atual
81 milhões. Esse é o número de pessoas que devem passar o Dia dos Namorados solteiras, no Brasil. Desde 2022, o ditado “melhor sozinho do que mal acompanhado” prevaleceu no lugar do “até que a morte nos separe” e a quantidade de solteiros superou a dos casados (63 milhões), segundo o Censo do IBGE.

Esse aumento expressivo — que é observado no Brasil e no mundo —, no entanto, não significa necessariamente uma sociedade mais cética acerca de compromissos afetivos. Uma pesquisa realizada pelo app de relacionamentos happn apontou que 27% dos 2 mil brasileiros consultados pretendem focar na vida amorosa em 2026. E, dentro desse recorte, 62% procuram por relacionamento sério.
Mas, para além de números, como e onde a busca por amor se dá na vida real? A sensação de que a “pista está salgada” é verdadeira? Quais são as armadilhas nessa procura? Conversamos com os especialistas Ana Suy, Ana Canosa, Christian Dunker, Lucas Bulamah e Thomas Schultz-Wenk para fazer um verdadeiro raio-X dos relacionamentos atuais.
A busca por amor em 2026
A pista está salgada?
Antes de qualquer diagnóstico, o psicanalista Christian Dunker pontua: “A pista estar salgada me parece uma reclamação um pouco preguiçosa”. Em sua visão, esse sentimento está conectado a um descompasso entre desejos e riscos assumidos por aqueles que buscam um relacionamento. “As pessoas não querem se aventurar ou adquirir compromissos incertos. Elas querem um amor que não tenha esse tipo de risco”, afirma.
O psicólogo Thomas Schultz-Wenk, conhecido nas redes como Thomy Talks, elenca a atrofia das habilidades psicossociais como um dos principais desafios na procura do amor. “Há uma sensibilização muito grande à rejeição”, diz.
Essa falta de maturidade emocional é exatamente o que torna a pista dos relacionamentos “salgada” e, por vezes, paralisa as interações presenciais. Por exemplo, por medo de ser rejeitada cara a cara, a pessoa opta pela proteção da realidade online — onde não existem negativas, apenas ausência de matches. Sem o processo de “dessensibilização da rejeição”, Thomas explica que não há um avanço para outras tentativas, apenas a paralisia.
“Você se arriscar para o outro é cada vez mais intrincado”, analisa Christian. Para além do medo do “não”, o psicanalista também menciona a necessidade de novos entendimentos sobre abordagens adequadas ou tóxicas, vistas como potenciais perigos na hora de iniciar uma conversa.
A escassez das abordagens, no entanto, não significa exigir menos das relações e de seus pretendentes. Pelo contrário, Thomas chama a atenção para um fenômeno de hiper exigência na escolha de seus pretendentes e cada vez menos tolerância às frustações intrínsecas aos encontros humanos. “Eu vejo um delírio coletivo das pessoas querendo e não tendo algo a oferecer na mesma equivalência”, aponta.
Online ou presencial?


Pelo bem ou pelo mal, a “pista” dos relacionamentos hoje está tanto nos ambientes presenciais quanto nas redes sociais. O advento da tecnologia e, sobretudo, o crescimento exponencial da internet na última década mudou alguns paradigmas dos relacionamentos e seu funcionamento.
Quando se fala sobre o flerte no ambiente digital, o psicólogo e psicanalista Lucas Bulamah chama a atenção para a necessidade constante de ser visto e notado. “Vale menos a impressão que você causa pra pessoa sonhar e fantasiar num tempo da sua ausência do que ela receber uma mensagem na DM ou no WhatsApp”, afirma.
Sob essa lógica imediatista sem espaço para pausas, ao sinal de qualquer falha ou demora, o pretende é prontamente descartado. “Esperamos do outro o mesmo tipo de agilidade, o mesmo tipo de atendimento, o mesmo tipo de fazer se valer a pena para não ser descartado”, pondera Lucas.
Mas, por mais rápidas ou recorrentes, as interações online ainda não representam um sinal de interesse, na visão de Thomas. Para o especialista, a única verdadeira demonstração de interesse é o convite para transportar essa relação para o presencial.
Mesmo com o avanço dos mais diversos aplicativos de relacionamento e da internet, o encontro offline nunca deixou de existir. Enquanto seres humano, vamos sempre precisar do próprio corpo em jogo, assim como o do outro, conforme esclarece a psicanalista e escritora best-seller Ana Suy. “São os lugares da vida, continua sendo escola, trabalho, aula de dança, aula de inglês, academia, até supermercado”, ri.
O que é o amor romântico hoje?

Tampa da panela. Metade da laranja. Alma gêmea. Os clichês do amor romântico não bastam para definir a visão que se tem do sentimento e compromisso no contexto atual. Não mais tratado como a solução para todos os problemas, o amor agora apresenta uma visão mais desidealizada, segundo Ana Suy.
Não só menos fantasiada, a expectativa de encontrar o amor também não é mais obrigatória entre as mulheres. Ana aponta para uma parcela de pessoas que tem buscado reposicionar a carga amorosa e não colocar tanta coisa na conta do amor, especialmente entre as mulheres, que não têm mais sua existência sustentada pelo casamento e maternidade.
A psicóloga Ana Canosa ainda complementa que os motivos para procurar um amor não foram os únicos que mudaram. Hoje, um match não depende apenas da atração física, como também da identificação e compatibilidade de princípios. “Muitos descartes acontecem por incompatibilidades de valores, estilo de vida, posicionamentos sociais, políticos, objetivos de futuro e habilidades emocionais”, aponta.
Isso é uma armadilha?
Enquanto a procura do amor existir, sempre haverá o risco de se machucar. Porém, é possível identificar sinais de armadilhas e evitar uma desilusão desnecessária. Ana Suy, por exemplo, elenca a busca por si mesmo no outro e por um relacionamento sem conflitos como uma das principais ciladas do amor.
Na mesma linha de entender o esforço necessário para iniciar um compromisso, Ana Canosa aponta para o perigo de transformar a busca amorosa em um processo de seleção infinita, acreditando que sempre existe uma opção melhor logo adiante. Além disso, mais uma vez, a importância de assumir os riscos inerentes do amor surge como uma emboscada: “Talvez a maior armadilha seja desejar os benefícios da intimidade sem aceitar as vulnerabilidades que ela exige”.
O que mais te preocupa na forma como nos relacionamos hoje?
Lucas Bulamah: “Aversão ao sexo”
Para Lucas, a maior preocupação é que as pessoas passem a detestar o sexo ao torná-lo algo excessivamente politizado, higienizado e purificado. O psicanalista teme que a sexualidade seja vista apenas como uma “ferramenta a serviço das expectativas do romantismo burguês”, perdendo o seu papel histórico de atuar como um mecanismo de desconstrução.
Thomas Schultz-Wenk: “Guerra dos sexos”

Já o que mais preocupa Thomas é o fato de que as pessoas estão, na prática, se relacionando cada vez menos devido ao retorno acentuado de uma verdadeira “guerra dos sexos”. Ele alerta para uma polarização crescente e extrema, onde homens e mulheres nutrem ressentimentos mútuos, criando um distanciamento perigoso pautado por pontos de vista radicalizados.
Ana Canosa: “Consumo afetivo e descartável”
Para Ana, o que mais a preocupa é a dificuldade atual de sustentar vínculos diante das frustrações, impulsionada por uma cultura que transforma as pessoas em meros produtos de consumo afetivo e descartável. “Quando passamos a olhar o outro apenas como uma coleção de atributos que devem satisfazer nossas expectativas, perdemos algo essencial: a capacidade de nos surpreender com a alteridade”.
Christian Dunker: “Desvalorização da descoberta”
A principal preocupação do psicanalista envolve a “inconsequência da palavra” e o excesso de foco na validação rápida do match e dos primeiros encontros. Em sua opinião, essa dinâmica gera um grande desperdício de conexões, já que as pessoas investem cada vez menos na maior dificuldade do amor: o desafio contínuo de sustentar o vínculo, descobrir o parceiro no dia a dia e construir, de fato, uma forma de vida em comum.
Ana Suy: “Terceirização da escolha amorosa”
Apesar de mais otimista acerca do momento atual das relações amorosas, a maior preocupação de Ana passa pela fantasia de que o amor e as conexões afetivas podem ser terceirizadas para uma inteligência artificial. A especialista alerta que o uso de tecnologias para mediar sentimentos, como pedir para uma IA escrever mensagens, afasta as pessoas de si mesmas e, consequentemente, acaba destruindo a capacidade humana de criar laços e se conectar verdadeiramente com o outro.
Por : Paula Carvalho
Fonte : Forbes Brasil

