O Luce nasceu para inaugurar uma nova era tecnológica na Ferrari, mas a recepção inicial foi marcada por críticas estéticas
A Ferrari abriu um novo capítulo de sua história ao revelar o Luce, seu primeiro carro 100% elétrico. Mas o que deveria marcar apenas a entrada da marca em uma nova era tecnológica acabou produzindo outra leitura, mais imediata e mais dura: a do mercado financeiro. Na terça-feira (26), dia seguinte à apresentação, as ações da fabricante em Milão caíram 8,37%. Nos Estados Unidos, os papéis recuaram 5,3%. Em Milão, a ação ainda cedeu 0,3% no pregão desta quarta-feira (27), acumulando queda de mais de 32% em 12 meses.

A queda não parece ter vindo de uma rejeição direta à eletrificação em si. O que pesou mais na reação inicial foi a combinação entre a recepção negativa ao desenho do carro e um movimento clássico de mercado: depois de uma forte alta antes da estreia, parte dos investidores aproveitou o lançamento para realizar lucros. Analistas associaram esse recuo justamente a esse encontro entre críticas ao design e a perda de fôlego natural de um papel que já havia subido bastante na expectativa pelo anúncio.

No caso da Ferrari, a apresentação do Luce teve ainda uma camada mais sensível: a percepção de que o novo carro se aproxima visualmente de uma linguagem associada ao mercado chinês, hoje o maior do mundo, com mais de 30 milhões de veículos, mas distante do repertório que parte do público e da indústria ainda associa ao imaginário clássico de Maranello.

Foi justamente nessa chave que o consultor automotivo Milad Kalume Neto leu a recepção inicial ao carro. “O que eu vi das pessoas falando muito não que não tanto elétrico, mas mais o design”, afirmou. Para ele, trata-se de “um design polêmico”, que “se aproxima muito do mercado chinês e não é um design típico de uma Ferrari”.

Por que as ações caíram
O mercado já vinha preparado para um lançamento de enorme peso simbólico. A Ferrari não apresentou apenas mais um modelo. Apresentou sua primeira interpretação integral de um esportivo elétrico, com arquitetura inédita, nova linguagem de design, quatro portas e cinco lugares – algo incomum na história da marca. Só que a recepção pública do visual embaralhou a leitura sobre a inovação técnica.



As críticas ganharam dimensão extra porque vieram também de nomes de forte carga histórica. O ex-presidente Luca di Montezemolo, figura central da Ferrari por décadas até 2014, chamou o carro de vergonha para a história da empresa e disse esperar que retirassem o cavalo empinado da dianteira do modelo. A Ferrari se recusou a comentar.

A repercussão negativa foi ampliada por outra voz política de peso na Itália. O vice-primeiro-ministro e ministro dos Transportes, Matteo Salvini, atacou o Luce em rede social, chamando-o de “absurdamente caro”, com preço de 550 mil euros, e dizendo que o carro não parecia em nada com um modelo do Cavallino Rampante.




Milad vê justamente nesse acúmulo de reações um dos fatores que ajudaram a pressionar os papéis. “Você não pode esperar uma declaração do Montezemolo falando o que falou ontem”, disse. “Ele querendo ou não representa a marca de uma forma bem importante. Acho que tudo isso tem que ser ponderado, tem que ser pensado.”
Na leitura do consultor, faz sentido que a Ferrari olhe para a China ao conceber um produto desse porte, mas o desafio está em equilibrar essa ambição com a identidade global da marca. “A apresentação de uma Ferrari focando no mercado chinês faz todo sentido”, afirmou. “Mas a gente sabe que não vai ser só para o mercado chinês.”
Por : Paula Carvalho
Fonte : Forbes Brasil

